quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Os 10 Melhores Discos Brasileiros Esquisitos de 2020


Em 2021, o Esquisito Sounds completará cinco anos. Até aqui, apesar do carinho que tenho pelo projeto, nunca consegui mantê-lo em atividade por um período relativamente estável e constante. 

Como todo final de ano renovamos as esperanças de que no ano seguinte será diferente, reforço meu compromisso com o Esquisito Sounds, pois preciso cuidar da minha formação continuada nas áreas que têm relação com o meu trabalho (sou educador), bem como ficar mais próximo da linguagem que, para mim, funciona como minha religião, ou seja, meu religare com o absoluto, com o divino: a música.

Como não consegui compartilhar nem uma banda ou música ao longo de 2020, farei uma seleção do que de melhor rolou no ano nas sonoridades não muito convencionais. Serão dez produções nacionais e dez internacionais. Hoje, vai a parte nacional da seleção. Nos primeiros dias de janeiro, entrego os dez álbuns gringos que mais chamaram minha atenção em 2020. 

Espero que as dicas compensem um pouco tanto tempo sem movimentar o blog!

Zebé Neto

Pesquisador, escritor e músico amador 

BOOGARINS -  Manchaca Vol. 1 (2020, OAR)

Confesso que sempre rolou de minha parte um certo preconceito com a Boogarins. Finalmente dei uma escutada no álbum novo da banda goiana, Manchaca Vol. 1 (2020, OAR) e achei bacana. Formada por Dinho Almeida (voz e guitarra), Benke Ferraz (guitarra, sintetizadores), Ynaiã Benthroldo (bateria) e Raphael Vaz (baixo) a Boogarins aproveitou a pandemia para revisitar parte de um catálogo de composições produzidas desde 2016, com a excursão de divulgação do segundo álbum da banda, Manual (2015), nos EUA. O novo trabalho segue o caminho da inexatidão, aberto com As Plantas Que Curam (2013), trabalho de estreia. Em Manchaca Vol. 1, a banda explora a incerteza das ideias, numa sequência de pedaços instrumentais que mudam de direção a todo tempo, texturas e experimentações eletrônicas, vozes submersas em meio a tudo isso estão presentes em Manchaca Vol. 1 (2020, OAR). 




CADU TENÓRIO -  "Monument for Nothig" (2020)


Experimentações eletrônicas, ambientações etéreas, momentos pop estão presentes no novo trabalho do produtor carioca Cadu Tenório. Monument for nothing (2020), lançado pelo QTV, o mesmo de artistas como Saskia e Tantão e os Fita, conta as participações de Juçara Marçal, Maurício Takara, Sara Não Tem Nome, Emygdio Costa, Rogério Skylab e Vitor Brauer (Lupe de Lupe).




CARABOBINA - "Carabobina" (2020)


O cantor e compositor goiano Raphael Vaz, o Fefel da Boogarins, e a multi-instrumentista, cantora e engenheira de som venezuelana Alejandra Luciani, uniram seus talentos para entregar o trabalho de estreia da Carabobina. O álbum homônimo se destaca pelas experimentações, camadas de guitarras, pelo tratamento dado as vozes como instrumentos e espaço para improvisações. Na obra tem espaço também para momentos mais acessíveis, com músicas que dialogam com uma fatia maior do público. 



FELIPE NEIVA - tanto. (Cavaca Records, 2020)

Em 
tanto. (2020), o cantor e compositor de Niterói (RJ) Felipe Neiva está de volta com um trabalho que amadurece as opções do músico pelo experimentalismo, seja dos temas instrumentais, quanto das melodias e vozes, passando pela psicodelia eletrônica à música de vanguarda. Para gravar o sucessor de Filho (2019), Neiva contou com os músicos Augusto Feres, Marcos Thanus, Marcelo Callado, Mari Romano, PH Rocha e Daniel Duarte e a participação internacional do clarinetista norte-americano Mike Watson, da pianista catalã Bru Ferri e do percussionista zimbabweano Dwayne Kapula. 



JOANA QUEIROZ - Tempo Sem Tempo (2020, YB Music)

Tempo Sem Tempo (2020, YB Music) é o quarto álbum de estúdio de Joana Queiroz. Canções que passeiam entre o jazz, o samba, a MPB e a música experimental marcam o mais recente trabalho da integrante do Quartabê, ao lado de Maria Beraldo, Mariá Portugal e Rafael Montorfano, e que já tocou com nomes como Hermeto Pascoal e Arrigo Barnabé.  Produzido pelo irmão da artista, o trabalho contou com as participações de Sergio Krakowiski, Domenico Lancellotti e Mariá Pontual. 






NEGRO LEO -  Desejo de Lacrar (2020)

O cantor, compositor e produtor maranhense Negro Leo lançou um novo trabalho de estúdio neste ano. Desejo de Lacrar (2020), lançado pelos selos YB Music e QTV, traz dez faixas que passeiam por diferentes gêneros, sempre de forma irregular, inexata, torta, pegada que vai da homônima faixa de abertura a última canção: Outra Cidade. Nos passeios sonoros do músico radicado no Rio de Janeiro tem espaço para o jazz, o experimentalismo eletrônico, art rock, sempre brincando com as possibilidades e ritmos. Acompanham Leo Sérgio Machado (bateria, percussão, programação, sintetizadores e co-produtor do álbum) Fabio Sá (baixo, arranjos de cordas), Chicão (sintetizadores, piano), Lello Bezerra (guitarra) e Everton Santos (programação). Desejo de Lacrar se junta aos discos Niños Heroes (2015), Água Batizada (2016) e Action Lekking (2017).




TANTÃO E OS FITA - Piorou (2020, QTV)

Carlos Antônio Mattos, o Tantão, junto com com Abel Duarte e Cainã Bomilcar, os Fita, entregaram Piorou (2020, QTV), terceiro álbum do artista carioca e da dupla de colaboradores. O registro consolida a caminho desenhado no segundo álbum do trio, Drama (2019): uma mistura de música experimental, eletrônica e industrial. Completa a discografia do coletivo a álbum de estreia de Espectro (2017) do músico experimental, artista plástico e lenda do underground carioca. 



THIAGO NASSI- Mente (2020, Gearbox Records)

O terceiro trabalho do cantor, compositor e multi-instrumentista Thiago Nassif,  Mente (2020, Gearbox Records), foi coproduzido por Arto Lindsay e mistura de uma forma bem interessante elementos eletrônicos, pop, rock, samba, jazz, pop, tudo misturado de modo irregular e disforme. O trabalho conta com várias participações especiais: o próprio Arto Lindsay nas faixas "Soar estranho" e "Feral Fox", Ana Frango Elétrico ("Voz única foto sem calcinha"),  o pianista pernambucano Vítor Araújo ("Rijo jórra já") e Donatinho (clavinet, em "Trepa trepa"), 

 

VOVÔ BEBÊ - Briga de Família (2020) 


Briga de Família (2020) é o título do primeiro álbum lançado por Pedro Dias Carneiro, o Vovô Bebê, neste ano. O artista dá seguimento ao caminho testado nos dois primeiros trabalhos de inéditas — Vovô Bebê (2015) e Coração Cabeção (2017) — de fragmentos sonoros obtidos pela desconstrução dos elementos e de uma recomposição através de estruturas instáveis, tortas, que ganha mais foça ainda em Briga de Famílía. As colaborações de vários nomes da cena carioca, como Aline Gonçalves (clarinete), Karina Neves (flauta) Jonas Hocherman (trombone), Guilherme Lirio (baixo), Tomas Rosati (percussão), Uirá Bueno (bateria), Gabriel Ventura (efeitos) e Ana Frango Elétrico, que acompanha o artista ao longo do trabalho, imprimem uma identidade múltipla à obra. Experimental, jazz, rock, samba e rock psicodélico fazem parte do universo do Vovô Bebê. 


VOVÔ BEBÊ - Lixas Vários Tipos (2020, Risco)
Depois de soltar, em fevereiro, o álbum Briga de Família (2020),  Pedro Dias Carneiro, o Vovô Bebê, está de volta com mais um trabalho de estúdio, Lixas Vários Tipos (2020, Risco). Lançado agora, no mês de dezembro, o álbum já entra direto na minha listinha dos melhores discos nacionais de 2020. O quarto álbum de inéditas do cantor, compositor e produtor carioca funciona como uma espécie de continuidade do ponto em que o músico parou, em fevereiro, com o disco Briga de Família. Assim como disco anterior, são canções ritmicamente diversificadas, que transitam por diferentes sonoridades, sempre num tempo irregular, torto. Novamente, as colaborações foram várias: a onipresente Ana Frango Elétrico (guitarra, voz), Biel Basile (bateria), Gabriel Ventura (guitarras), Marcelo Callado (bateria), Chico Neves (sintetizadores) e o nosso querido Irmão Victor (saxofone), um dos poucos artistas a terem um post aqui no Esquisito Sounds. Completam a discografia do Vovô Bebê os álbuns Vovô Bebê (2015) e Coração Cabeção (2017). 


terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Em 2019, "Trout Mask Replica" completou meio século de esquisitice



No universo da música pop, grandes clássicos foram lançados em 1969. Beatles, Rolling Stones, Pink Floyd e Led Zeppelin lançaram alguns dos mais importantes álbuns da história da música: "Abbey Road", "Let it Bleed", "Ummagumma" e "Led Zeppeini, respectivamente. 

Sem fazer muito alarde, no mesmo ano, Captain Beefheart and His Magic Band, lançou outro clássico: o hoje cultuado Trout Mask Replica. O álbum duplo é o terceiro trabalho de estúdio da banda de rock norte-americana. 


Lançado em 16 de junho de 1969, pela Straight Records, a obra é considerada uma importante referência da música experimental e do art rock, tendo influenciado gêneros como o punk e a new wave.

Passeando pelo R&B, garage rock, blues, free jazz, folk, música experimental e de vanguarda, o álbum foi gravado, em março de 1969, no Whitney Studios, Glendale, Califórnia, por Don Glen Van Vliet (ou Don Van Vliet ou Captain Beefheart), voz, harmônica e saxofone, Bill Harkleroad e Jeff Cotton, guitarras, Mark Boston, baixo, Victor Haydenclarinete, e John French, bateria e percussão. 

A maior parte do álbum foi produzido por Frank Zappa, que também aparece com sua voz em duas faixas, "Pena" e "The Blimp"


"Trout Mask Replica" foi um fiasco de vendas nos EUA, não alcançando nenhuma posição nas paradas. Melhor desempenho teve no Reino Unido, onde ocupou por algumas semanas a 21ª posição na UK Albums chart. 


Considerado a obra-prima da carreira de Van Vliet, o álbum é referência para artistas que vieram na sequência (Tom Waits e PJ Harvey beberam dessa fonte). Musicalmente incomum, as composições do disco não seguem uma marcação de tempo linear, ao contrário, são marcações de tempo inusitadas, tornando a obra um dos discos mais estranhos do século XX. 


Nos "500 Maiores Álbuns de Todos Tempos", edição de 2012 da Rolling Stone, a obra aparece na posição de número 60. No livro "Almanaque da Música Alternativa", de 1995, o crítico Alan Cross colocou o álbum na segunda posição na sua lista de "Álbuns Alternativos Clássicos". No mesmo ano a Mojo, colocou o álbum no número 28 na sua lista "Os 100 Maiores Álbuns Já Feitos". O álbum também foi incluído no livro "1001 Álbuns Para Ouvir Antes de Morrer", de Al Spicer. 


O disco conta com alguns apreciadores famosos, como Matt Groening, David Lynch, John Frusciante e Stevie Vai.  



Zebé Neto
Pesquisador, escritor e músico amador






quinta-feira, 19 de abril de 2018

Irmão Victor: experimentações sonoras e psicodelia de Passo Fundo (RS)


Resultado de imagem para Passos Simples para Transformar Gelatina em um Monstro (2016)
Marco Benvegnú, músico e compositor gaúcho, aposta nas experimentações como principal característica do projeto Irmão Victor (Imagem: Som do Som)
 
Um critério utilizado por mim para escutar algum artista desconhecido é através da arte do álbum. Alguma coisa na capa do disco Passos Simples para Transformar Gelatina em um Monstro (2016) me dizia que encontraria ali música da boa. Não deu outra. 

O segundo disco de inéditas do Irmão Victor, projeto musical do cantor e compositor Marco Benvegnú, de Passo Fundo (RS), vai buscar na psicodelia e pegadas lisérgicas das décadas de 1960 e 1970 elementos estruturantes do som do gaúcho.


Passos Simples para Transformar Gelatina em um Monstro (2016)

Esse ano o músico saltou o terceiro de inéditas, Cronópio? (2018, Chupa Manga Recs.), trabalho onde Benvegnú "esconde segredos, nuances e pequenas texturas instrumentais que convidam o ouvinte a desvendar e não apenas ouvir o trabalho", segundo resenha publicada no site Miojo Indie.
                                                                          Cronópio? (2018)

O primeiro álbum, "Irmão Victor" (2016), com uma pegada mais low-fi, contém todos os elementos que seriam amalgamados em Cronópio?: música experimental, rock, música brasileira, música latina, eletrônica, pitadas de jazz, pop psicodélico. Do álbum são as canções "Hoje eu mordi uma vaca" e "Universum Tanga Est".  







Marcante também é a ironia e tom satírico das letras, com destaque para os títulos bem esquisitos das composições. O que dizer de títulos como "Mostarda com água morna", "Soluço de arroz puro", "Assistindo 'A Vaca e o Frango' com a Salete", "Ascensão e Queda do Pub",  "Canção para minha chaleira vermelha" e  "Insônia & Rinite Alérgica"?


Zebé Neto
Pesquisador e músico amador